sábado, 20 de março de 2010

MICHAEL MANN - "HÁ UMA GUERRA CONTRA A CIÊNCIA"

Michael Mann fabricou o taco de hóquei mais famoso do mundo. No início dos anos 90, montou um gráfico que mostrava a linha de temperatura da Terra relativamente estável por milhares de anos, até dar um salto nas últimas décadas. Batizado de taco de hóquei pela forma, o gráfico tem sido usado como evidência do aquecimento global. Sua fama foi abalada no ano passado, quando alguém invadiu o computador de e-mails da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e descobriu mensagens de e-mail trocadas com outros pesquisadores que sugeriam manipulação dos dados. No mês passado, uma investigação independente da universidade americana concluiu que Mann é inocente. Em entrevista a ÉPOCA, ele diz que os ataques vêm da indústria do petróleo. E afirma que ela move uma guerra suja contra os cientistas.


QUEM É
Diretor do Centro de Ciências da Terra da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA. Pesquisa o clima na Pré-História 
O QUE FAZ
Escreve no blog RealClimate, uma das referências da ciência climática. É um dos cientistas do IPCC, o painel climático da ONU 



ENTREVISTA - MICHAEL MANN






ÉPOCA – Como o senhor se sentiu com a controvérsia dos e-mails vazados? 
Michael Mann – 
Não há nada que ponha em xeque as mudanças climáticas causadas pelo homem. Aqueles que se opõem à ação contra o aquecimento global recorreram a essa campanha para criar confusão. O fato de terem usado essa tática já revela como estão desesperados. Eles perderam o debate científico. Agora, não têm outro recurso para desviar a atenção pública do problema.



ÉPOCA – O senhor se sentiu injustiçado? 
Mann – 
As pessoas mais importantes para mim, meus colegas cientistas, conseguiram enxergar que havia uma armação por trás das denúncias. E que o objetivo era atacar a ciência e os próprios cientistas. Infelizmente, quem montou essa operação conseguiu trabalhar com eficiência a opinião pública. Isso é triste, porque as evidências científicas nunca foram tão fortes em relação ao aquecimento. É interessante que meus primeiros trabalhos, que mostravam as variações climáticas naturais, como El Niño, foram bem recebidos pelos céticos das mudanças climáticas. Quando minhas pesquisas começaram a mostrar um aquecimento estranho, que pode ser efeito da atividade humana, aí sim eles me atacaram.



ÉPOCA – O senhor tem alguma pista de quem fez os ataques? 
Mann – 
Não sei quem foi o criminoso que invadiu os computadores (da Universidade de East Anglia) no Reino Unido. Mas muitos grupos de lobby contra o aquecimento promoveram a história antes de ela chegar à mídia, algo suspeito. Parece que eles sabiam antes de o fato vir a público. Um dos primeiros foi o National Center for Policy Analysis (Centro Nacional para Análise Política), uma entidade financiada pela empresa de petróleo Exxon Mobil. Muitos desses grupos são patrocinados pela Exxon e pela Scafe Foundation, que representa interesses da indústria petrolífera nos Estados Unidos.



ÉPOCA – O que mudou quando o senhor foi inocentado pela investigação da Universidade do Estado da Pensilvânia? 
Mann – 
Tinha confiança de que qualquer revisão imparcial chegaria a essa conclusão. Mesmo assim, houve lobby da indústria de combustíveis fósseis e de negadores profissionais do aquecimento global para que se criasse uma inquisição aos pesquisadores do clima. O senador (republicano) James Inhofe, de Oklahoma, tem afirmado que os cientistas americanos ligados ao IPCC devem ser submetidos a uma investigação criminal, até Susan Solomon (da Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera, a Noaa), coordenadora do painel nos Estados Unidos. Muitos aqui estão comparando essas ações ao macarthismo dos anos 60 (quando artistas americanos foram perseguidos por suposta ação comunista).



"Há lobby das empresas de combustíveis fósseis para 
criar uma inquisição contra os pesquisadores do clima"



ÉPOCA – Dizem que havia um prêmio de US$ 12 milhões na universidade para quem pudesse apontar alguma fraude do senhor. É verdade? 
Mann – 
Vários indivíduos usaram táticas desonestas para tentar sustentar as alegações de que as pesquisas foram distorcidas. No mundo legal, chamamos esse pessoal de limpa-fundo (peixe que se alimenta da sujeira do aquário). Eles buscam qualquer alegação, mesmo que falsa, para tentar faturar. É o que está acontecendo. Há gente vasculhando tudo para encontrar qualquer evidência contra os cientistas.



ÉPOCA – Num dos e-mails investigados, o pesquisador Phil Jones, de East Anglia, diz que usou um “truque” (trick, em inglês) seu para chegar a um gráfico de temperatura. Que truque é esse? 
Mann – 
Cientistas e matemáticos geralmente usam esse termo de uma forma inócua. No jargão científico, significa apenas alguma maneira inteligente de obter um resultado. O desonesto desses ataques é que quem vazou os e-mails sabia disso. Mas tentou dar a impressão de que havia algo errado ali para quem não está acostumado com o jargão. Um dos efeitos apavorantes desses ataques é que podem deixar os cientistas desconfortáveis ao usar e-mail. E o e-mail é a principal ferramenta para trocarmos informações.



ÉPOCA – O que os cientistas devem aprender com esse episódio? 
Mann – 
O objetivo dos ataques é inibir pesquisadores que trabalham em áreas em que os estudos ameaçam direitos adquiridos. Já vimos isso com pesquisas da evolução humana ou dos farmacêuticos. Nos anos 70 e 80, a indústria do tabaco usou táticas parecidas para intimidar os pesquisadores que relacionavam o fumo com o câncer. Torço para que os ataques tenham o efeito contrário. Para que os cientistas defendam seus valores de busca pelo conhecimento.



ÉPOCA – Como essa crise poderá afetar as negociações de um tratado internacional do clima? 
Mann – 
Não sei. Os ataques foram planejados para sabotar a cúpula de Copenhague (reunião da ONU em dezembro do ano passado). Não creio que tenham surtido esse efeito. Os impasses em Copenhague foram causados mais pela natureza complexa da negociação que pela falta de certeza sobre o aquecimento global. Mas temo que os ataques ofereçam um pretexto a quem quer adiar as medidas necessárias para reduzir as emissões poluentes.



ÉPOCA – O senhor usou seu blog, um dos mais respeitados na área do clima, para se defender? 
Mann – 
Você botou o dedo na ferida. Vários colegas nos Estados Unidos têm feito esforços para se comunicar com o grande público. Mas ainda não é o suficiente. Somos muito poucos. Temos certeza de que as mudanças climáticas são causadas pela ação humana. E que, se não as controlarmos, as consequências serão dramáticas. É isso que diz o IPCC.



ÉPOCA – O problema é que o IPCC também está em xeque agora. 
Mann – 
Se você for realista, é um relatório com milhares de páginas. Aí você encontra apenas um erro e transforma isso em uma tempestade, como se comprometesse a credibilidade de todo o relatório. Estamos exigindo um grau de perfeição que não existe em nenhum grande levantamento do tipo. Não estamos nem debatendo se as geleiras do Himalaia estão ou não derretendo. Mas a velocidade disso. Era apenas um dos milhares de dados colhidos pelo IPCC. Essa conclusão não chegou ao relatório final, nem ao sumário executivo, nem ao sumário técnico, que servem de orientação para políticas públicas. É como se você abrisse o manual de funcionamento de seu carro e descobrisse um erro de impressão na página 53. Você vai desconfiar que o carro não funciona direito por causa disso? Vai deixar de dirigi-lo? É triste porque o relatório do IPCC continua sendo rigoroso e confiável em suas principais conclusões.

FONTE: Época (www.revistaepoca.globo.com)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar? artigo de Leonardo Boff



O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Esse projeto vem da ditadura militar dos anos 70. Sob pressão dos indígenas apoiados pelo cantor Sting em parceria com o cacique Raoni foi engavetado em 1989. Agora, com a licença prévia concedida no dia 1º de fevereiro, o projeto da ditadura pôde voltar triunfalmente, apresentado pelo governo como a maior obra do PAC.

Neste projeto tudo é megalômano: inundação de 51.600 hectares de floresta, com um espelho d’água de 516 km², desvio do rio com a construção de dois canais de 500m de largura e 30 km de comprimento, deixando 100 km de leito seco, ?submergindo a parte mais bela do Xingu, a Volta Grande e um terço de Altamira, com um custo entre 17 e 30 bilhões de reais, desalojando cerca de 20 mil pessoas e atraindo para as obras cerca de 80 mil trabalhadores para produzir 11.233 MW de energia no tempo das cheias (4 meses) e somente 4 mil MW no resto do ano, para, por fim, transportá-la até 5 mil km de distância.

Esse gigantismo, típico de mentes tecnocráticas, beira a insensatez, pois, dada a crise ambiental global, todos recomendam obras menores, valorizando matrizes energéticas alternativas, baseadas na água, no vento, no sol e na biomassa. E tudo isso nós temos em abundância. Considerando as opiniões dos especialistas podemos dizer: a usina hidrelétrica de Monte Belo é tecnicamente desaconselhável, exageradamente cara, ecologicamente desastrosa, socialmente perversa, perturbadora da floresta amazônica e uma grave agressão ao sistema-Terra.

Este projeto se caracteriza pelo desrespeito às dezenas de etnias indígenas que lá vivem há milhares de anos e que sequer foram ouvidas; desrespeito à floresta amazônica cuja vocação não é produzir energia elétrica mas bens e serviços naturais de grande valor econômico; desrespeito aos técnicos do IBAMA e a outras autoridades científicas contrárias a esse empreendimento; desrespeito à consciência ecológica que devido às ameaças que pesam sobre o sistema da vida pedem extremo cuidado com as florestas; desrespeito ao Bem Comum da Terra e da Humanidade, a nova centralidade das políticas mundiais.

Se houvesse um Tribunal Mundial de Crimes contra a Terra, como está sendo projetado por um grupo altamente qualificado que estuda a reinvenção da ONU sob a coordenação de Miguel d’Escoto, ex-presidente da Assembléia (2008-2009), seguramente os promotores da hidrelétrica de Belo Monte estariam na mira deste tribunal.

Ainda há tempo de frear a construção desta monstruosidade, porque há alternativas melhores. Não queremos que se realizem as palavras do bispo Dom Erwin Kräutler, defensor dos indígenas e contra Belo Monte: “Lula entrará na história como o grande depredador da Amazônia e o coveiro dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu”.

Leonardo Boff, teólogo, é representante e co-redator da Carta da Terra.

Artigo originalmente publicado no Correio da Cidadania, parceiro estatégico do EcoDebate na socialização da informação.
EcoDebate, 26/02/2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Quatro frases que fazem crescer o nariz do Pinóquio - por Eduardo Galeano [*]



1. Somos todos culpados pela ruína do planeta A saúde do mundo está um asco. "Somos todos responsáveis", clamam as vozes do alarme universal e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, já ninguém é. Reproduzem-se como coelhos os novos tecnocratas do meio ambiente. É a taxa de natalidade mais alta do mundo: os peritos geram peritos e mais peritos que se ocupam de envolver o tema na papel celofane da ambiguidade. Eles fabricam a nevoenta linguagem das exortações ao "sacrifício de todos" nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça converter-se numa catástrofe ecológica comparável ao buraco do ozono – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial afoga a realidade para conceder impunidade à sociedade de consumo, a qual é imposta como modelo em nome do desenvolvimento e para as grandes empresas que lhe extraem o sumo. Mas as estatísticas confessam. Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20 por cento da humanidade comete 80 por cento das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam suicídio, e é a humanidade inteira quem paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima [1] e da dilapidação dos recursos naturais não renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que os 7 mil milhões de povoadores do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "seriam precisos 10 planetas como o nosso para satisfazer as suas necessidades". Uma experiência impossível. Mas os governantes dos países do Sul prometem a entrada no Primeiro Mundo, passaporte mágico que nos tornará todos ricos e felizes, não deveriam ser processados apenas por trapaça. Não estão apenas a escarnecer de nós, não: além disso, esses governantes estão a cometer o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que nos está a enfermar o corpo, a envenenar-nos a alma e a deixar-nos sem mundo.


2. É verde o que se pinta de verde Agora, os gigantes da indústria química fazem a sua publicidade em cor verde e o Banco Mundial lava a sua imagem repetindo a palavra ecologia em cada página dos seus relatórios e tingindo de verde os seus empréstimos. "Nas condições dos nossos empréstimos há normas ambientais estritas", esclarece o presidente da banca suprema do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limita a liberdade de contaminação. Quando foi aprovada no Parlamento do Uruguai uma tímida lei de defesa do meio ambiente, as empresas que lançam veneno ao ar apodrecem as águas arrancaram subitamente a recem comprada máscara verde e gritaram a sua verdade em termos que poderiam assim ser resumidos: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotar o desenvolvimento económico e a espantar o investimento estrangeiro". O Banco Mundial, em troca, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez por reunir tanas virtudes, o Banco manejará, junto à ONU, o recem criado Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projectos que não destruam a natureza. Intenção impecável, conclusão inevitável: se esses projectos exigem um fundo especial, o Banco Mundial está a admitir, de facto, que todos os seus demais projectos fazem um fraco favor ao meio ambiente. O Banco chama-se Mundial, como o Fundo Monetário chama-se Internacional, mas estes irmãos gémeos vivem, ganham e decidem em Washington. Quem paga, manda e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato onde come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governo nossos países cativos que pelo serviço da dívida pagam aos seus credores externos 250 mil dólares por minuto e lhes impõe a sua política económica em função do dinheiro que concede ou promete. A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite apinhar de quinquilharias mágicas as grandes cidades do Sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, apodrecem as águas que nos alimentam e crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.


3. Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bom do Al sempre enviava flores aos velórios das suas vítimas... As empresas gigantes da indústria química, petrolífera e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco 92. A conferência internacional que no Rio de Janeiro se ocupou da agonia do planeta. E essa conferência, chamada Cimeira da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e dela vivem e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno. No grande baile de máscaras do fim do milénio, até a indústria química veste-se de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo, que para ajudar à natureza estão a inventar novos cultivos biotecnológicos. Mas estes desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química. Buscam, sim, plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas produtoras de sementes do mundo, seis fabricam pesticidas (Sandoz, Ciba-Geigy, Dekalb, Pfiezer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas. A recuperação do planeta ou o que nos resta dele implica a denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que se parece antes à jardinagem, faz-se cúmplice da injustiça de um mundo onde a comida sã, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos e sim privilégios dos poucos que podem pagá-los. Chico Mendes, seringueiro, caiu assassinado em fins de 1988, na Amazónia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não se pode divorciar da luta social. Chico acreditava que a floresta amazónica não será salva enquanto não se fizer a reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores por ano morrem assassinados na luta pela terra e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão para as cidades abandonando as plantações do interior. Adaptando os números de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas, a rebentar pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem mudar dentro dos limites da ecologia, surda perante o clamor social e cega perante o compromisso político.


4. A natureza está fora de nós Nos seus 10 mandamentos, Deus esqueceu de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos envio do monte Sinai, o Senhor teria podido acrescentar, por exemplo: "Honrarás a natureza de que fazes parte". Mas não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi apresada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia com a idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crónicas da Conquista, os índios nómadas que usavam cascas de árvores para vestir-se jamais descascavam todo o tronco, para não aniquilar a árvore. E os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansar a terra. A civilização que vinha impor as devastadoras monoculturas de exportação não podia entender as culturas integradas à natureza e confundiu-as com a vocação demoníaca ou a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que era preciso domar e castigar para que funcionasse como uma máquina, posta ao nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, devia-nos escravatura. Muito recentemente percebemos que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e soubemos que, como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que há que protegê-la. Mas num caso ou outro, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper o seu próprio céu.



[1] O clima (felizmente) não pode ser enlouquecido pela acção humana. Esta tem poder "apenas" para degradar e destruir o ambiente. (N.R.) O original encontra-se em cultural.argenpress.info/2009/12/cuatro-frases-que-hacen-crecer-la-nariz.html

ARGENTINA: PETRÓLEO E MALVINAS NO DEBATE PELA SOBERANIA

Por Júlio C. Gambina*

Foi reaberta a polêmica sobre as Malvinas em cima de um assunto estratégico: a exploração de petróleo. A notícia remete a investimentos ingleses nas ilhas argentinas usurpadas pelo Reino Unido e à decisão do governo platino de impedir o transporte de materiais associados à dita exploração. Essa medida governamental é sustentada pelo descumprimento inglês de acordos diplomáticos entre ambos os países. Acordos que funcionaram entre 1995 e 2007 e foram reiteradamente descumpridos pelas licitações de áreas petroleiras autorizadas pela Inglaterra nas Malvinas.
 
As repercussões e declarações em cada país motivam as mais diversas especulações, inclusive belicistas (ao melhor estilo Thatcher em 1982), no ambiente eleitoral britânico, mas o importante é a discussão sobre o uso soberano dos recursos naturais, um tema que transcende a exploração de hidrocarbonetos e se projeta sobre a exploração dos minérios, da terra e sua produção agrícola e pecuária, especialmente em tempos de subida nos preços dos alimentos e deterioração do poder de compra dos setores de menor renda.
 
O capital sem fronteiras
 
O fato são as concessões para explorar e prospectar jazidas localizadas em mar argentino. São ações de empresas transnacionais sobre um potencial de 200 bilhões de barris de petróleo.
 
Não é besteira lembrar o peso estratégico da produção petroleira nas condições do modelo produtivo vigente e que a Argentina é dos poucos países que não administra soberanamente as suas reservas. Noventa por cento das reservas de petróleo do mundo são administrados pelos Estados nacionais. Claro que também se verifica a dependência da atividade petroleira em relação às corporações privadas que controlam todo o seu pacote tecnológico, além da comercialização, financiamento e transporte. Não é suficiente a soberania sobre as jazidas, sendo estratégico o pacote tecnológico completo, o know-how da exploração, prospecção e distribuição do hidrocarboneto. É todo um assunto para pensar a questão energética a partir de um enfoque alternativo, pois não se trata somente de recuperar a petroleira estatal, senão de articular um trabalho de ciência e tecnologia nos marcos da cooperação e integração regional.
 
O episódio que comentamos é articulado pela empresa Desire Petroleum e um de seus principais acionistas, o Banco Barclays, instituição financeira organizadora selecionada pelo governo argentino para a reabertura da troca da dívida externa na suspensão dos pagamentos. Trata-se de uma combinação de dois temas centrais, a exploração de petróleo e a negociação dos créditos externos. Convenhamos que a questão envolve sócios locais da iniciativa inglesa, já que o detido embarque de tubos sem costura provinha da empresa Techint. Este consórcio atua na exploração petrolífera em território argentino através da Tecpetrol e cabe a interrogação sobre se a tentativa exportadora da Techint não desautoriza a ação do grupo na exploração petrolífera em nosso país (Argentina).
 
É um raciocínio extensivo à atividade petrolífera inglesa, da Barclays e da banca britânica, assim como de todas as empresas externas, especialmente inglesas, que operam no país. Recordemos que existem disposições da Secretaria de Energia que proíbem expressamente operar na plataforma continental argentina sem autorização da autoridade competente do país, situação que inclui as empresas "controladoras, controladas, acionistas e associadas".
 
Pensar e agir soberanamente
 
São questões a considerar no marco do recrudescimento da crise da economia mundial, onde se discutem a questão fiscal da Europa, o déficit dos Estados europeus e seu financiamento pela banca européia. A resposta à crise do capital e dos Estados hegemônicos passa pelo ajuste das contas públicas, afetando salários e gasto estatal social, e por uma nova escalada da ofensiva do capital pelo aumento da exploração da força de trabalho e dos recursos naturais.
 
É tempo para pensar na administração soberana da economia, em soberania alimentar, energética e financeira. O que estamos sugerindo é combinar ações diplomáticas com um debate sobre a soberania da ordem econômica. Por acaso é utópico pensar nisso, quando a tendência é de alta do preço do petróleo, das taxas de juros (agora aumentadas pelo Federal Reserve dos EUA) e dos preços dos recursos naturais? O debate não é ocioso, ainda mais quando o país negocia o tratado de livre comércio entre o Mercosul e a Europa para maio, nos festejos do bicentenário.
 
O assunto é que não são discussões diferentes, o livre comércio que afeta e afetará a debilitada indústria local é parte da estratégia ofensiva do capital mundial pela expansão de sua atividade em recursos naturais, finanças e comércio.
 
O que sugerimos é a oportunidade para a discussão sobre a organização econômica local e sobre as bases da soberania, agora que se acaba de anunciar o funcionamento de uma articulação entre o Ministério da Economia e o Banco Central para redefinir o ‘modelo produtivo’ surgido da suspensão dos pagamentos, nos fins de 2001, e da desvalorização cambial dos inícios de 2002. Dali veio o grande crescimento econômico dos últimos anos. Sustenta-se agora que, além do dólar alto, faz falta financiamento para ampliar o investimento e a acumulação.
 
Pretendemos argumentar que engordar o mesmo modelo produtivo não serve. Requer-se avançar em outro sentido, onde o eixo seja a soberania e a satisfação de necessidades sociais, mediante a extensa a pobreza na Argentina.
 
*Julio Gambina é professor de Economia Política na Faculdade de Direito 
da Universidade Nacional de Rosário e membro do 
CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais).

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Efeitos do aquecimento global sobre a economia do Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Onze gabaritadas instituições de pesquisa brasileiras somaram esforço para mapear os efeitos do aquecimento global na economia brasileira. São elas: Embrapa, Inpe, USP, Unicamp, Coppe/UFRJ; Fiocruz, Fipe, IMPA; Cedeplar/UFMG, Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável e o Ipea.
A premissa básica do estudo é que a mudança do clima pode ter um grande impacto na agricultura brasileira, com efeitos populacionais (migração, por exemplo), redução do PIB e elevação da pobreza. No resumo executivo do estudo “Economia das Mudanças do Clima no Brasil (EMCB)” está explicitado a necessidade de quantificar o impacto da mudança do clima na agenda de desenvolvimento do país: “Sem conhecimento minimamente fundamentado sobre essas tendências, tomadores de decisão ficam desprovidos de instrumentos para identificar os riscos mais graves e urgentes e para avaliar e implantar as medidas de prevenção e adaptação mais eficientes em termos de custos e benefícios”.
Se não houver mudanças tecnológicas, em um cenário de 30 anos, haverá um impacto muito grande da água. Uma das prováveis consequências a longo prazo é a mudança no mapa da agricultura brasileira. O estado do Ceará pode perder 80% da área fértil. Já Piauí e Pernambuco podem perder entre 60% e 70% da agricultura. No Maranhão, os produtores perderam 16% da soja neste ano por causa da chuva forte.
No resumo publicado estão relacionados os principais resultados obtidos seguidos de recomendações de políticas públicas. Entre as principais conclusões está que os piores efeitos da mudança do clima recairão sobre as regiões Norte e Nordeste, as mais pobres do Brasil, e que, portanto, o custo da inação hoje será o aprofundamento das desigualdades regionais e de renda. Vejamos as principais perspectivas macroeconômicas:
- “Estima-se que sem mudança do clima o PIB brasileiro será de R$ 15,3 trilhões (reais de 2008) no cenário A2-BR em 2050, e R$ 16 trilhões no cenário B2-BR. Com o impacto da mudança do clima, estes PIBs reduzem-se em 0,5% e 2,3% respectivamente.
- Antecipados para valor presente com uma taxa de desconto de 1% ao ano, estas perdas ficariam entre R$ 719 bilhões e R$ 3,6 trilhões, o que equivaleria a jogar fora pelo menos um ano inteiro de crescimento nos próximos 40 anos.
- Com ou sem mudança do clima, o PIB é sempre maior em B2-BR do que em A2-BR. Isto quer dizer que na trajetória mais limpa do cenário B2-BR, a economia cresce mais, e não menos. Em ambos cenários, a pobreza aumenta por conta da mudança do clima, mas de forma quase desprezível.
- Haveria uma perda média anual para o cidadão brasileiro em 2050 entre R$ 534 (ou US$ 291) e R$ 1.603 (ou US$ 874). O valor presente em 2008 das reduções no consumo dos brasileiros acumuladas até 2050 ficaria entre R$ 6.000 e R$ 18.000, representando de 60% a 180% do consumo anual per capita atual”.
Referencia:“Economia das Mudanças do Clima no Brasil (EMCB)”
José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, é colaborador e articulista do EcoDebate. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br
EcoDebate, 19/02/2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O SURGIMENTO DO SENSORIAMENTO REMOTO

Por Jorge Raffo* e Rúbia Gomes Morato**

Uma das tecnologias mais utilizadas pelos profissionais de Geografia é o Sensoriamento Remoto. O termo significa a obtenção de informações sem o contato direto com o objeto de estudo. Trata-se de uma técnica que se iniciou com a utilização de fotografias da superfície da Terra, tomadas a partir de balões, para a elaboração de mapas, ainda no século XIX, pouco tempo depois da invenção da fotografia. Posteriormente evoluiu com o uso de aviões e satélites.

No princípio, além dos balões, também foram utilizados pipas (ou papagaios) e até pombos para transportar as máquinas e tomar fotografias da superfície. Mais tarde, os aviões se tornaram a principal plataforma das máquinas fotográficas e passou-se a obter fotografias a partir de maiores altitudes, o que possibilitava cobrir áreas mais extensas. À medida que a fotografia aérea foi evoluindo, foram desenvolvendo-se duas ciências paralelas, a Fotogrametria e a Fotointerpretação.

A Fotogrametria se preocupou em desenvolver as técnicas que melhor representavam a forma do terreno, sua topografia e a métrica dos mapas produzidos a partir das fotos aéreas. Esta ciência adquiriu uma grande relevância durante a Segunda Guerra Mundial e, atualmente, quase toda a cartografia em escalas menores a 1/5000 é realizada usando Fotogrametria.

Paralelamente desenvolveu-se a Fotointerpretação. Diferentemente da anterior, esta ciência não estava muito preocupada com a questão métrica e quantitativa, mas sim com a questão qualitativa, o que poderia ser visto e identificado sobre uma fotografia. Também começou orientada a resolver questões militares. Um dos problemas era como identificar numa fotografia aérea veículos militares pintados com camuflagem dentro da floresta. A partir dessa questão, surgiu a possibilidade de utilizar filmes fotográficos sensíveis a radiações diferentes da luz visível, como o filme infravermelho, por exemplo. 

Comparando duas fotografias, uma obtida com filme sensível à luz visível e outra da mesma região sensível ao infravermelho poderiam ser identificados objetos que de outra forma ficavam escondidos pela camuflagem, já que a vegetação e os objetos metálicos como os veículos militares aparecem com tons diferentes numa fotografia em infravermelho. Este efeito é chamado de "resposta espectral diferenciada". Posteriormente, a fotografia em infravermelho passou a ser amplamente utilizada com fins civis, especialmente com relação a questões vinculadas às questões da vegetação e agricultura. O infravermelho permite, principalmente, detectar estresse na vegetação com muita eficácia e é muito útil, por exemplo, no monitoramento de culturas agrícolas.

Um aparelho chamado Estereoscópio possibilitou a visualização de duas fotografias de um mesmo objeto tomadas desde locais diferentes, de forma a poder observá-lo em terceira dimensão. Esse aparelho possui duas lentes que simulam as visões dos dois olhos, esquerdo e direito. Olhamos a primeira fotografia pela lente esquerda e a segunda pela lente direita. O resultado é a visão em relevo, com os topos das montanhas e os fundos de vales bem evidentes.
Por volta da década de 1970, as missões espaciais começaram a levar câmaras fotográficas para obter imagens desde o espaço, e posteriormente estas foram substituídas por câmaras sem filme fotográfico, similares às câmaras de televisão. Nessa época, quando a fotointerpretação de fotografias de avião começava a ser substituída por interpretação de imagens obtidas por naves espaciais, a técnica passou a ser denominada de Sensoriamento Remoto.

Na década de 1980, com a invenção do microcomputador e dos monitores coloridos, começou-se a generalizar o uso do computador para interpretar os objetos existentes nas imagens enviadas pelos satélites. Posteriormente com o aparecimento do scanner e a possibilidade de digitalizar as fotografias aéreas, assim como a criação de softwares especializados em identificação dos objetos das imagens através de métodos matemáticos chamados de "classificadores espectrais de imagens", desenvolveu-se uma das tecnologias que mais rapidamente tem crescido no século XX e XXI, o Sensoriamento Remoto, também chamado de Teledetecção.

No início, as imagens de satélites eram restritas apenas para uso militar. Depois, foram abertas para uso civil, sendo utilizadas por pesquisadores, técnicos de órgãos públicos e consultores ambientais, mas o custo ainda era muito elevado. Recentemente, o custo das imagens tem caído e existem até mesmo imagens que são disponibilizadas gratuitamente na Internet. O Brasil está entre os países que possuem tecnologia para construção de satélites de sensoriamento remoto. O Satélite Sino-brasileiro de Recursos Terrestres foi construído em parceria com a China e suas imagens são disponibilizadas gratuitamente pela Internet.
Hoje, imagens de satélite são utilizadas nas aplicações mais variadas, como meio ambiente, vegetação, agricultura, mineração e geologia, clima, planejamento urbano e regional, dentre outras.

O Google Earth popularizou as imagens de satélite e os usuários podem explorar gratuitamente imagens de todo o planeta, com diferentes graduações de aproximação (zoom), desde a visualização dos continentes até das ruas e avenidas com detalhes das construções, transeuntes e veículos. Por tudo isso, o que era de domínio de especialistas, logo espalhou-se e passou a ser utilizado de maneira ampla pela população em geral, alcançando o ambiente escolar.


Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres
Da sigla em inglês, CBERS: O programa CBERS é um projeto conjunto entre o Brasil e a China para a construção de uma família de satélites de sensoriamento remoto. O programa CBERS foi iniciado em 1988. Trata-se de modelo de cooperação e intercâmbio tecnológico entre países em desenvolvimento. Atualmente, está em operação o CBERS-2, lançado em outubro de 2003.



*Jorge Raffo é professor Doutor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. 
**Rúbia Gomes Morato é geógrafa, com pesquisas de mestrado e doutorado em Sensoriamento Remoto.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO

Para elucidar um pouco o assunto...

Em nota, Dieese demonstra com dados que 40 horas semanais são viáveis e benéficas para todos

Nesta semana, a campanha pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários levou, novamente, o movimento sindical brasileiro à Brasília, com o objetivo de mostrar aos parlamentares a importância da adoção desta medida para os trabalhadores e para o país. Com o desenrolar dos debates na Câmara dos Deputados, mais uma vez os empresários e seus representantes manifestaram sua posição contrária à proposta.

O DIEESE, entidade criada pelo movimento sindical e que há 54 anos realiza estudos, pesquisas e análises de temas de interesse dos trabalhadores, tem acompanhado as centrais sindicais em sua luta pela aprovação dessa proposta. Por meio desta nota, o DIEESE volta a reafirmar que o Brasil apresenta condições para implementar a redução da jornada de trabalho, bem como tem necessidades que demandam a adoção dessa medida, o que pode ser visto nos itens seguir:

a) O custo com salários no Brasil é muito baixo quando comparado com outros países, segundo informações do Departamento de Trabalho Americano. Assim, a redução da jornada de trabalho não traria prejuízos à competitividade das empresas brasileiras.

TABELA 1

Custo horário da mão de obra manufatureira em 2007

Países selecionados

Países

US$


Alemanha

37,66


Reino Unido

29,73


França

28,57


Estados Unidos

24,59


Espanha

20,98


Japão

19,75


Coréia

16,02


Singapura

8,35


Taiwan

6,58


Brasil

5,96


México

2,92


Fonte: U.S Department of Labor, Bureau of Labor Statistics, 2009.

Elaboração; DIEESE

b) Em relação aos encargos sociais no Brasil, os empresários defendem a tese de que estes representam 102% do salário dos trabalhadores partindo de um cálculo que não é correto. Vários itens que são considerados encargos nessa conta são, na verdade, parte da remuneração do trabalhador, como é admitido pelos próprios consultores empresariais. Encargos sociais são aquela parcela do custo do trabalho para a empresa que não vai para o bolso do trabalhador. Encontram-se, nesta situação, o pagamento de férias, 13º salário, descanso semanal remunerado, FGTS. Tudo isso vai para o bolso do trabalhador e, portanto, não é encargo social.

Os encargos sociais são a contribuição para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), para o Serviço Social da Indústria (Sesi), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e demais instituições que compõem o Sistema S, para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para o seguro de acidentes do trabalho, para o salário educação, para o Serviço de Sebrae. E representam 25,1% da remuneração total do trabalhador.

Desta forma, um trabalhador contratado com um salário mensal na carteira de R$1.000,00, recebe, em média, R$1.229,10 por mês, pois neste valor estão considerados outros itens integrantes de sua remuneração. Ou seja, também está incluído o que ele recebe de 13º salário, de adicional de 1/3 de férias, de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) - que é um patrimônio individual do trabalhador -, além da proporção mensal do que ele recebe em caso de ser demitido sem justa causa.

Com todos estes componentes incluídos no salário, este trabalhador custa para a empresa R$ 1.538,00. O valor dos encargos corresponde, portanto, a R$ 308,90, que representam 25,1% dos R$1.229,10, que é a remuneração total do trabalhador. Portanto, um trabalhador que é contratado por R$ 1.000,00 não custa para a empresa mais 102% (R$ 2.020,00) como afirmam os empresários, mas R$ 1.538,00.


TABELA 2

Desembolso total mensal para empregar um trabalhador

(Salário contratual hipotético de R$ 1.000,00)

Item de despesa

Subparcelas

Desembolso (em R$)


1. Salário contratual

1.000,00


2. Salário Adiado ou Diferido

13º e adicional de 1/3 de férias (como proporção mensal)

111,11


3. Folha de pagamentos média mensal (1 + 2)
(base de cálculo dos encargos sociais)

1.111,11


4. FGTS e verbas rescisórias (proporção mensal)

118,00


5. Remuneração média mensal total do trabalhador

(3 + 4)

1.229,10


6. Encargos sociais

6.1 - INSS (20%)

222,22

6.2 - Seguro de acidentes de trabalho (2% em média)

22,22

6.3 - Salário-educação (2,5%)

27,78

6.4 - Incra (0,2%)

2,22

6.5 - Sesi ou Sesc (1,5%)

16,67

6.6 - Senai ou Senac (1,0%)

11,11

6.7 - Sebrae (0,6%)

6,67


Encargos sociais (incidentes sobre R$ 1.111,11)

308,89


7. Desembolso total mensal do empregador (5 + 6)

1.538,00


Elaboração:DIEESE.


c) O peso dos salários no custo total de produção no Brasil é baixo, em torno de 22% de acordo com a CNI. Uma redução de 9,09% na jornada (de 44 para 40 horas) representaria um aumento no custo total da produção de apenas 1,99%.

d) Comparando-se este pequeno acréscimo no custo médio de produção com os expressivos ganhos de produtividade, tal impacto é muito possível de ser absorvido pelo setor produtivo, isto sem considerar a perspectiva ganhos futuros de produtividade. A variação da produtividade do trabalho entre os anos de 1988 e 2008 está em torno de 84%, segundo dados do IBGE, para indústria de transformação.

e) Como o salário médio real, nos últimos anos, não apresentou significativa expansão, o expressivo crescimento da produtividade do trabalho poderia ser transformado na redução da jornada legal de trabalho no Brasil, fato este que ocorreu pela última vez há mais de 20 anos, na Constituição da 1988.

f) A redução da jornada de trabalho é um dos instrumentos para a distribuição de renda no país.

g) O Brasil tem um contingente grande de desempregados - em torno de 3 milhões, apenas nas sete regiões metropolitanas pesquisadas pela PED. A proposta de redução da jornada das atuais 44 para 40 horas semanais, tem potencial para gerar mais de 2,5 milhões de postos de trabalho.

h) A duração da jornada efetivamente trabalhada no Brasil é uma das maiores no mundo. Soma-se ainda, a isto, a falta de limitação semanal, mensal ou anual para a realização de horas extras. Em diversos países há limitação anual para a realização de horas extras, como na Argentina, Uruguai, Alemanha, França, cujos limites ficam entre 200 e 280 horas/ano, em torno de 4 horas extras por semana. O fim das horas extras teria um potencial para gerar em torno de 1 milhão de postos de trabalho. Por esta razão, é necessário combinar a redução da jornada com mecanismos que coíbam e limitem a utilização das horas extras.

i) A jornada de trabalho no Brasil está cada vez mais flexível, dado que às tradicionais formas de flexibilização do tempo - como a hora extra, o trabalho em turno, o trabalho noturno, as férias coletivas -, somaram-se novas formas - como a jornada em tempo parcial, o banco de horas e o trabalho aos domingos.

j) Além de extenso e flexível, o tempo de trabalho no Brasil vem sendo intensificado em função das diversas inovações técnico-organizacionais implementadas pelas empresas como, por exemplo, a polivalência, a concorrência entre os grupos de trabalho, as metas de produção e a redução das pausas.

k) Num contexto de crescente demanda do setor produtivo para que os trabalhadores se qualifiquem, a redução da jornada de trabalho, sem redução dos salários, em muito contribui para este desafio na medida em que liberaria mais horas para que o trabalhador tivesse melhores condições de qualificar-se.

l) A redução da jornada de trabalho, também possibilita aos trabalhadores dedicar mais tempo para o convívio familiar, o estudo, o lazer e o descanso, melhorando a qualidade de vida dos trabalhadores.

m) A combinação de todos estes fatores desencadeados pela redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, provoca a geração de um círculo virtuoso na economia, combinando a ampliação do emprego, o aumento do consumo interno, a elevação dos níveis da produtividade do trabalho, a melhoria da competitividade do setor produtivo, a redução dos acidentes e doenças do trabalho, a maior qualificação do trabalhador, a elevação da arrecadação tributária, enfim um maior crescimento econômico com melhoria da distribuição de renda.

POR FALAR NA SOJA...





Com relação ao "post" do Vico que tratou do assunto da soja, desejo fazer minha colaboração ao assunto. Acima, podemos constatar o aumento do plantio de soja desde 1975 até 2005 (seguir os pontos azuis nos mapas), segundo dados do IBGE, em nossa fronteira de expansão agrícola, área esta que muitas vezes invade a floresta amazônica. Na última figura, constatamos o "arco do desflorestamento", onde o que sta em vermelho são áreas já devastadas, tanto para a plantação de soja ou para a criação de gado. Tudo em nome da opção de crescimento desenfreado e imediatista que nosso país escolheu.

A pergunta que deixo aos amigos é a seguinte: qual é a porcentagem de derivados de soja que você consome diariamente em sua mesa, nas refeições?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

UTILIZAÇÃO DOS ESPAÇOS E DISTRIBUIÇÃO DE TERRAS

Um enorme salve aos confrades geográficos !!!
Nesta pequena matéria da Zero Hora (jornal aqui de Porto Alegre-RS) penso que existem vários pontos a serem abordados e refletidos por nós da geografia. Iniciando pela distribuição de terras, produtividade, perpassando pela logística, transgênicos (pois ele prefere plantar milho por sua localização e consequentemente com menor incidência da transgenia) enfim, pelo aproveitamento de "espaços" por nós.
Somente como preliminar, não sou a favor dos transgênicos (por motivos e princípio da prevenção), somente fiz a observação já trazida pela matéria.
12 de fevereiro de 2010 N° 16244 VISÃO DE FORA
Campeão da soja faz tour no paísNorte-americano visita o Centro-Oeste e fica impressionado com extensão de propriedades
Impressionante. Essa foi a definição do agricultor norte-americano Kip Cullers, campeão mundial em produtividade de soja, em relação ao tamanho das propriedades rurais brasileiras.
Cullers, que foi apresentado ontem pela empresa global de sementes Pioneer, está em Mato Grosso fazendo um tour por lavouras. O agricultor produz 173 sacas por hectare – a média brasileira é de 60 sacas por hectare, resultado alcançado depois de muita experiência em suas terras.
Ao abordar que um dos pontos que lhe chamaram a atenção foi a extensão das propriedades, o campeão da soja acabou fazendo a comparação inevitável com os Estados Unidos quanto à logística.
– Temos rodovias de quatro pistas, estradas de ferro, usamos os rios que são navegáveis e os portos não são tão distantes – disse.
– E lá, temos pequenas propriedades, enquanto aqui andamos quilômetros e quilômetros vendo apenas plantação sem nenhuma casa. É uma coisa de fundir os miolos – comparou.
O produtor americano comentou ainda que o clima é favorável ao plantio no Brasil e que, por isso, as chances de se aumentar a produtividade da soja são muito grandes. Destacou, no entanto, que não tem uma receita para isso, já que as características de clima e solo nos dois países são muito diferentes.
Apesar de ser recordista, a área plantada por Cullers é relativamente pequena em termos brasileiros. Segundo ele, suas lavouras incluem 4 mil hectares de milho, 2 mil hectares de legumes e 300 hectares de soja.
– Minha região tem déficit de milho porque concentra muitos aviários. Por isso, para mim, é muito melhor plantar milho – explicou.
No caso da soja, toda a produção é feita com sementes geneticamente modificadas, enquanto esse percentual cai para 80% no milho.
Fonte: zerohora.com

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

BIOCOMBUSTÍVEL EMPURRA BOI PARA MATA

Ao aumentar a produção de biocombustíveis para substituir o petróleo, o Brasil pode dar grande contribuição para o mundo reduzir as emissões de gases-estufa, mas essa política pode acabar sendo um tiro pela culatra, indica um novo estudo.
Se a tendência atual de mudanças no uso da terra continuar, plantações de cana-de-açúcar e soja tomarão o lugar de pastagens, e estas serão empurradas para áreas de floresta, desmatando e emitindo carbono.
Isso é o que indica uma projeção feita pelo ecólogo paulista David Lapola, da Universidade de Kassel (Alemanha), autor principal de um estudo publicado na edição de hoje da revista "PNAS".

 

Segundo ele e seus coautores, se o Brasil cumprir seu objetivo para 2020 --aumentar em 35 bilhões de litros a produção de álcool e em 4 bilhões de litros a de biodiesel de soja-- essas duas culturas empurrariam as pastagens para cerca de 60 mil km2 de floresta, desmatando uma área maior do que a Paraíba.
Segundo os cientistas, a troca de petróleo por biocombustível levaria 250 anos para compensar as emissões desse desmate.
As conclusões de Lapola e seus colegas saíram da projeção de uma tendência que já se verifica. "Identificamos quais seriam as mudanças diretas de uso da terra, e a maioria era biocombustível tomando lugar de pasto", explica Lapola.
De gado para soja
"As mudanças indiretas eram o gado que estava naquele espaço sendo realocado em outras regiões, sobretudo Amazônia e cerrado." Mais de 90% da expansão da soja na Amazônia em 2006, por exemplo, ocorreu sobre áreas de pastagem.
Especialistas afirmam que o estudo do ecólogo é consistente, mas sua conclusão é polêmica. Para o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, especialista em política energética e membro do conselho editorial da Folha, o artigo tenta "assegurar que na distribuição internacional do trabalho [agricultura] o Brasil se mantenha como produtor de alimento barato".
"Se esse alerta pretende criar desconfiança em relação a nossos produtos, acho ruim, principalmente agora que os EUA acabam de reconhecer o etanol brasileiro como um combustível avançado", diz Suzana Kahn Ribeiro, secretária nacional de Mudança Climática.
Lapola explica que seu trabalho não deve ser visto como uma profecia incontornável, mas como um dado a partir do qual planejar ação.
Segundo ele, por exemplo, se a produtividade do gado tiver um pequeno aumento de intensidade --de 0,09 cabeças por hectare para 0,13-- o problema poderia ser contornado. A recuperação de pastos degradados e abandonados também ajudaria.
Para Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, essas mudanças já estão acontecendo. "Nos últimos 20 anos a área de pastagem diminuiu, e a produção de carne aumentou."
Lapola, porém, defende que o governo atue para fomentar a produção intensiva. "Muitos subsídios hoje vão para aquisição de animais, manutenção da infraestrutura e várias outras coisas, mas pouco vai para incentivar o aumento da intensidade da criação ou a recuperação das pastagens degradadas."

FONTE: Folha Online
09.02.2010