terça-feira, 13 de outubro de 2009

Destruição do Cerrado


            Mais de cinco séculos depois de a esquadra de Cabral aportar na Bahia, para o anúncio formal do descobrimento do Brasil, continuamos um processo de destruição ambiental que deveria nos encher de horror e constrangimento.
            Não os tripulantes da esquadra de Cabral ─ que seguiram para as “Índias” atrás de outros negócios, onde utilizaram fartamente o fogo dos canhões. Mas os que vieram em seguida, enraizando a cana para a produção do açúcar. Eles observaram a formidável barreira da Mata Atlântica e acenderam as primeiras tochas na abertura de caminhos para o interior e na preparação da terra para o plantio.
            Suportável pensar que aqueles novos donos da terra ─ tomada à força das armas dos ocupantes originais ─ pensassem no fogo num momento em que a imagem do mundo era outra e o instrumento para limpeza dos campos eram as chamas.
            Dar sequência a essa saga de destruição, no entanto, na conclusão da primeira década do século 21, é um atestado de truculência injustificável e um saque criminoso contra o patrimônio natural nacional e, por extensão, humano.
            Os dados nas páginas dos grandes jornais e do noticiário nobre envolvendo queimadas no Cerrado são, literalmente, de tirar o sono.
            Como podemos ser tão estúpidos, a ponto de queimarmos uma riqueza que ainda nem tivemos tempo de explorar?
            Para os espíritos práticos, um tipo de gente pragmática, interessada no aqui e agora e no que parece ser a única coisa que tem valor no mundo, o dinheiro, é preciso dizer que é exatamente isso que estamos fazendo: queimando riqueza, torrando dinheiro, como os velhos coronéis, que faziam charutos com notas de 1 mil réis, como forma de exibir um poder que sempre foi anacrônico.
            O desmatamento e queima do Cerrado já é responsável pelo mesmo volume de gás carbônico emitido pela destruição da Amazônia, segundo análise do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), utilizando os satélites Landsat, americano, e o CBERS, desenvolvido numa parceria Brasil/China.
            Mesmo que Santa Catarina esteja pagando na própria pele o preço das mudanças climáticas ─  resultado do aquecimento global pelo lançamento de gases de efeito-estufa como o gás carbônico ─ parece difícil para a sociedade nacional assimilar que, com o padrão de ocupação à base do fogo e do desmatamento, temos tudo a perder e praticamente nada a ganhar.
            É preciso reconhecer que, majoritariamente, a estrutura mental por trás de boa parte da agricultura de grande extensão, voltada para o mercado internacional, “está se lixando” ─  expressão que renasceu no congresso nacional ­─ para as consequências de tudo isso.
            A sociedade como um todo, no entanto, deve fazer pressão no sentido de coibir essa impunidade.
            Como fazer isso?
            Denunciando os incendiários junto às entidades de proteção ambiental.
            Alguém pode dizer que parte dos organismos públicos ligada a essa área está apodrecidos pela corrupção, o que é absolutamente verdadeiro.
            Mas isso não significa cruzar os braços e pensar: “isso não é comigo”.
            Inconformados e há muitas razões para ser/estar assim, podem agrupar-se em clubes e associações e oferecer resistência e denúncias junto ao Ministério Público, que tem demonstrado um poder revigorante no combate à truculência antissocial.
            Biomas como Cerrado e Caatinga, longe de ser os ambientes aparentemente empobrecidos, se comparados, por exemplo, à majestosa floresta tropical, são fonte de recursos estratégicos, entre outras áreas, em fitoterápicos, plantas com princípios ativos capazes de amenizar um enorme sofrimento humano.
            Esperar que o governo e toda estruturas lenta e burocrática ponham fim a essa destruição criminosa, de certa forma, é acreditar que a questão está sendo resolvida.
            Não está.
            Isso fica mais sensível, inicialmente, pela população de Santa Catarina, assolada por mais um tornado que, em muitos casos, destruiu tudo, do pouco que muitos tinham.
            Dar sequência à destruição criminosa, mais que um ato de irresponsabilidade, é uma forma de loucura.

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